Wednesday, February 6, 2013

A CARTA

Sou marcada pela experiencia de ter mantido ao longo da vida, relacionamentos a distancia.Talvez seja esse o motivo das cartas terem, para mim, um significado tao romantico e especial.

Fazia muito tempo que eu nao recebia carta pelo correio. Especificamente falando, nem me lembro quando foi a ultima vez. Anos? Decadas?
As cartinhas que recebo hoje sao mensagens curtas enviadas pelo Facebook ou e-mails.  Pelo correio, trazidas pelo carteiro chegam todos os dias muitos envelopes com cartas editadas eletronicamente vendendo produtos e servicos.  Sao cartas de bancos, de partidos politicos vendendo seus peixes, do dentista atencioso lembrando que ja e hora da visita de rotina, do convenio medico tao preocupado com a minha saude, alertando que o mamograma venceu.  Sao cartas desnecessarias e impessoais. Leio com  desinteresse e rapidez. Vao diretamente para o lixo. Reciclavel e claro!

Hoje, para alegrar o meu dia mais um pouquinho, junto com esse amontoado de envelopes frios e inuteis chegou a carta de uma amiga que mora no Havai. Esse envelope branco se destacava dos demais:  Escrito a mao e posso garantir, selado e fechado com a saliva do remetente.

A carta comeca com a saudosa introducao.  "Querida Elda, desejo que esta a encontre em perfeita saude, paz e alegria"
Senti uma certa nostalgia quando terminei de ler. Logo, os sentimentos vividos ligados as cartas comecaram a pipocar na minha lembranca.

Escrever uma carta era um ritual. Tinha todo um preparo: Escolher o papel certo, a cor da tinta da caneta. Era todo um preparo. A gente separava uma hora do dia para elaborar a carta. Elas eram longas, escritas com capricho.  As vezes  demorava  varios dias para serem escritas. Primeiramente fazia-se um rascunho para garantir que o resultado final fosse uma carta limpa, sem erros e rasuras.Depois de passar a limpo o rascunho, as folhas eram dobradas cuidadosamente e meticulosamente. Por fim, dependendo do destinatario nao podia faltar as gotinhas de perfume. Isso quando nao punhamos dentro, fotos e  flores secas.

As cartas traziam a letra e um pouco da alma de quem as escrevia.  Nelas registravamos segredos,  declaracoes de amor, poesias. Elas levavam noticias de todos em casa, dos vizinhos, da cidade. Quantas e quantas vezes as paginas eram molhadas pela emocao, manchadas e marcadas pelas lagrimas que nao podiamos conter.

A espectativa de receber uma carta era enorme! Era uma ansiedade gostosa de sentir. E o grito do carteiro? Carteeeeeeeeiro! O coracao disparava de emocao e de alegria so de imaginar que aquela carta tao esperada pudesse estar dentro daquela bolsa enorme de couro marrom.
Os carteiros eram os mensageiros do amor. Eram os pombos-correios. Se o carteiro nao viesse ou se nao trouxesse "aquela" carta tao esperada, a frustracao e tristeza eram enormes. A espera era longa mas valia a pena esperar dias, semanas interminaveis para receber noticias do namorado, da familia ou de um amigo distante!

Ler as cartas era receber um carinho no coracao, na alma. Eu as lia devagar, com muita calma, no silencio. Saboreava cada letra, degustava cada palavra. Lia, re lia e voltava a ler tantas vezes quanto o tempo e o prazer me permitisse. Sentia o aroma das maos e o perfume da pele de quem escreveu. Depois as guardava cuidadosamente e com carinho em algum lugar muito especial. As cartas eram um pequeno tesouro.


Tuesday, January 29, 2013

"Bolsa-Bandido" nao existe.

Auxilio-Reclusao / "Bolsa-bandido" 

Tenho lido com bastante frequencia em e-mails e postagens nas redes sociais, comentarios distorcidos, inflamados e enfurecidos sobre o beneficio da Previdencia Social - o Auxilio-Reclusao.
O unico objetivo dessas bobagens ambulantes publicadas e espalhadas pelas redes sociais e o de induzir as pessoas ingenuas e mal informadas ao engano e fomentar a revolta contra o governo, o pais, o brio dos brasileiros e o sistema previdenciario.
E claro que nao pretendo acabar ou afastar esse tipo de tistorcoes mal intencionadas, mas quem sabe poder ajudar alguem um pouco mais curioso ou cuidadoso a nao repetir ou compartilhar essas besteiras.

Trabalhei no INSS por 11 anos mas isso nao significa que voce tenha que acreditar cegamente nas informacoes deste blog. Tire suas proprias conclusoes depois de pesquisar o assunto diretamente na fonte.

As pessoas revoltadas e indignadas com esse beneficio estao muito atrasadas no tempo ja que o Auxilio-Reclusao foi criado durante o governo de Jucelino Kubitscheck em junho/1960 . Lei regulamentada em junho/1991 durante o governo de Fernando Collor. Portanto, o Auxilio-Reclusao nao foi criado durante o governo do PT como muitas pessoas pensam erroneamente. Ja existe ha mais de 50 anos!

INSS nao e de graca. INSS e uma entidade seguradora e funciona como qualquer outra empresa de seguro. Somente tem direito a receber os beneficios, os contribuintes ou segurados que qualifiquem e que tenham contribuido $$ com pagamentos ao INSS.  Sendo assim, todo auxilio ou beneficio inclusive o Auxilio-Reclusao, nao sai dos cofres publicos e muito menos do bolso dos cidadaos que pagam seus impostos. O dinheiro vem da arrecadacao feita pelo proprio contribuinte ( nesse caso, o detento)
Nao e porque o individuo foi preso que ele automaticamente ira receber o Auxilio-Reclusao. Ele tera que preencher varios requisitos para que seus dependentes possam receber o beneficio. Obs: Quem recebe o beneficio nao e p preso e sim os seus dependentes de baixa renda.
Esse beneficio foi criado justamente para proteger a familia. Principalmente os dependentes menores e inocentes para que possam subsistir durante o tempo em que o provedor estiver encarcerado.
Vale a pena lembrar tambem e considerar que nem todo condenado e bandido assassino ou pedofilo.

Para que os dependentes do recluso possam receber o Auxilio-Reclusao e preciso qualificar!

.Comprovar baixa renda ou seja: que o ultimo salario de contribuicao recolhido antes da prisao seja inferior ou igual a $ 915.05  (ver tabela do INSS) e que esteja em dia com a previdencia.
O primeiro requisito que e ser contribuinte do INSS ja desqualifica a grande maioria ja que nao e comum que os presos tenham vinculo algum com o INSS.  Alguem ja viu um criminoso daqueles tipo traficantes, trombdinhas, etc... contribuir para a previdencia social? Pode ate ser que exista mas creio que nao seja muito comum. Nao e toda a populacao carceraria que tem direito ao beneficio. Bandido mesmo nao precisa de INSS. Eles nem pensam nisso. Assim como tambem nao precisam de seguro de carro, plano de saude, etc O bandido, ladrao, vagabundo raramente esta inserido no trabalho formal. Quase sempre vive da informalidade. Consequentemente, seus dependentes nao tem acesso ao beneficio. Somente uma pequena minoria qualifica para que os seus dependentes possam receber o auxilio.

. O valor do beneficio nao e R$ 915.05 . Esta e a renda limite para a concessao do beneficio. O valor do beneficio aos dependentes do preso e calculado pelo INSS, seguindo uma media aritmetica calculando 80% dos maiores valores de contribuicao do segurado (preso) a partir de julho de 1994. O resultado e dividido entre todos os dependentes e pago separadamente a cada um.

Podemos nao estar de acordo com todas as acoes do governo, podemos nao ser simpatizantes do partido ou do governo em gestao mas vale discutir, lutar com armas puras, honestas.

E sempre inteligente e prudente, ler, pesquisar o assunto para nao pagar o mico de repassar informacoes que nao procedem.

Fonte:










Tuesday, February 14, 2012

FACE BOOK O BIG BROTHER INTERNAUTA

Ao meu ver o FB e assim:

E um espaço publico onde compartilhamos nossos pensamentos, noticias, poemas que nos tocam, piadas, fotos, eventos. Promovemos nossos trabalhos, talentos, receitas, viagens, compartilhamos as musicas que curtimos. Falamos de artes, esportes, de política e ate religião e crenças. (Temas altamente perigosos e polêmicos, mas, mesmo assim, vez que outra nos arriscamos ). Batemos papo. Papos sérios, papos cabeça, papos de boteco, jogamos conversa fora, confraternizamos, discutimos, reencontramos amigos, parentes perdidos afastados pela distancia e pelo tempo. Fazemos novos amigos, sorrimos, choramos, damos gargalhadas, soltamos gritos de desabafo.

E uma grande sala de visitas. Todos interagimos, nos expomos, mostramos nossas qualidades, virtudes, muitas vezes nossas fraquezas, medos, preocupações e preferências. Declaramos nossos amores, gostos e assim, sutilmente, deixamos transparecer nosso caráter, nossa personalidade. Somos o que somos na vida la fora e aqui dentro do FB.  Falamos praticamente todos ao mesmo tempo como em uma grande família italiana ou brasileira.  O papo vai rolando noite e dia. Não tem fim.

Assim como na sala de visitas ou em uma mesa de bar, ouço e participo de todo tipo de conversa. Quem e que nunca falou "abobrinha", contou uma mentira de pescador, contou uma piada sem graca, fez fofoca da vizinha, da emprega, da sogra ou da secretaria do patrão?  Tudo e valido ate certo ponto. Afinal de contas, ninguém e perfeito, de ferro.

Normalmente quando ouço opiniões das quais não compactuo ou não concordo, fico calada, considero a fonte e ignoro.  Possuo ouvidos seletivos e um bom grau de tolerância (ainda que muitos pensem que não).  Quando a infamia, a mentira, o desrespeito, a calunia repete-se dia após dia, hora após hora e sempre pelo mesmo ou mesmos cidadoes, enchendo o meu mural na mesma proporção que enche o meu “saco” (perdão pelo meu frances) e então que eu digo NÃO.

No FB existe a opção de curtir e comentar. Podemos usar uma ou outra ou as duas simultaneamente. Se existe a opção e para ser usada eu uso. Desculpem os meus “amigos” que falam o que querem porem, não aceitam ser contrariados. O espaco comentário, não necessariamente e para concordar, elogiar ou lustrar o nosso ego. O espaço e livre, assim como e livre o ato de se expressar.   Não pretenda que eu va chamar o meu “amigo” contador de lorotas, desrespeitador ou preconceituoso no cantinho, no escurinho, em particular para expressar a minha opinião. Assim como na sala de visitas ou na mesa do bar acontecem divergências e discussões, ao meu ver, no FB a dinâmica e a mesma. Assim como tambem, continua valendo, a etica e o bom senso para o convivio social saudavel e dentro de um clima de respeito.

Existem algumas opinioes que eu sou resistente e intolerante. Não e que eu sinta prazer em ser do contra. Muito pelo contrario. Eu sou da paz, do amor, do riso, da musica, da festa, da confraternização, da família unida, da natureza, do mar, das flores, das crianças,
  
Aqui vai uma listinha pequena, somente 5 itens, de opiniões que irão despertar em mim, aquele desejo forte, quase compulsivo de comentar e com certeza o “amigo” não ira gostar.  

  • ·         Sensacionalismo (aquelas noticias ou fotos explicitas de corpos mutilados, sangue, animais dilacerados, etc.) Simplesmente retiro rapidamente do meu mural.
  • ·         Comentarios preconceituosos e pejorativos sobre preferência sexual, raça, aparência física, idade, preferência partidária, religião....
  • ·        Comentários onde o “amigo” dono da verdade desrespeita o cidadão que votou no candidato político que não e o da sua preferência.  
  • ·         Plagio. Nao gosto da mesma forma que não compactuo com o furto, e roubo.
  • ·         Acho de péssimo mau gosto, triste, deplorável as piadas ou comentários maldosos explorando a dor, a morte, o sofrimento, a doença de outro ser humano. 
  • Fake news, Informacoes falsas, erradas e mentirosas. Existem ferramentas para evitar a divulgacao de noticias mentirosas portanto, quem as propaga o faz com um objetivo obscuro.
Gosto de estar perto de pessoas positivas, estimulantes, que acrescentam. Gosto de pessoas que respeitam os seus semelhantes assim como os seus “diferentes”.
Quem achar que sou chata, cri-cri e intolerante, e muito simples resolver o problema: Em um simples apertar de tecla.....puff ! Fui e a recíproca e verdadeira. Foi.

O que eu não poço e deixar de ser quem eu sou, ou deixar de lutar por aquilo que eu acredito.

Nao posso deixar de ser quem sou, apesar de amar a quem amo e as vezes discordar seriamente de quem amo.

Sunday, October 9, 2011

MAIS UMA CHANCE - MINHA EXPERIENCIA DE QUASE MORTE

Por que sera que algumas pessoas passam pela experiencia de quase morte? Seria para valorizar mais a vida, repensar e ajustar as prioridades, desenvolver a espiritualidade, perder o medo do desconhecido fantasma chamado morte?

Tudo comeceu em um sala cirurgica onde eu seria submetida a uma operacao para remendar meu braco esquerdo quebrado em varias partes resultado de um acidente de carro quase fatal.
O centro cirurgico era muito frio, bem iluminado, decorado com aparelhos e ferramentas impecavelmente organizadas.  Um forte cheiro angustiante de alcool misturado a formol exalava no ar. Estava eu la completamente so e cheia de medos. Resignadamente aguardava a aplicacao da anestesia geral, deitada em uma maca coberta com lencois verde esperanca.

O anestesista finalmente iniciou o procedimento.   A distancia, eu ouvia as vozes sussurradas dos medicos e assistentes, o som estridente e desafinado das ferramentas  nas bandeijas metalicas e o "bib" dos monitores em uma cadencia ritimada. Fechei os olhos cansados. Desliguei, apaguei, dormi o sono profundo e viajei. Quase nao voltei para contar essa historia.

Perdi a nocao do tempo.  Lembro  apenas de deslizar vagarosamente dentro de um tunel que me lancou  delicadamente a um espaco vazio. Um campo infinito de uma luminozidade incomparavel e indescritivel.  Era a total ausencia da escuridao.  Um brilho que nao ofuscava. Nao incomodava. Era bom. Era perfeito.

 Flutuei nessa outra dimensao e senti muita paz, calma, leveza e uma sensacao de bem estar como jamais tinha sentido antes.
De repente meu corpo fisico ouvia passos rapidos, vozes apreensivas chamando meu nome. Abri os olhos e despertei daquilo que pensava ser um sonho.  Aquele espaco vazio, infinito e belo  seria o ceu? A porta de entrada do ceu?

Mais tarde, ja no quarto do hospital, o medico me informou da dificuldade que tive para voltar da anestesia.
Entendi entao que o tunel, o espaco infinito, o brilho, a paz total e absoluta realmente aconteceram. Enquanto os medicos tratavam meu corpo, meu espirito estava tambem sendo curado.

Hoje tenho fe e a plena conviccao de que a morte nao e o fim. O ser humano e muito mais do que um corpo. Somos espirito tambem. Tenho certeza disso. A existencia eterna e real. Deus, o Criador, essa energia universal que nos mobiliza, nos une e nos da sentido a vida existe. Uma outra dimensao onde nossa consciencia vive em sintonia com o amor, a uniao,  paz absoluta e harmonia tambem existe.

Essa experiencia de quase morte foi incrivel ! Foi uma viagem solitaria, nao planejada a um destinho desconhecido, sem roteiro, sem direito a fotos ou souvenirs. Mas foi sem duvida uma viagem inesquecivel, forte e transformadora. Impossivel de esquecer.

 

Friday, September 23, 2011

SORRISO

Estou cansada de meios sorrisos. Sorrisos de faz de conta, sorrisos palidos, sem vida, sorriso estudado, ensaiado, lacrado com medo de se dar.

Quero um sorriso daqueles que brota n'alma e cresce no coracao ainda que seja triste, timido. De-me um sorrio espontaneo, que brilha nos olhos, sorriso amigo, sincero, desprendido, sem medo. Sorriso que energiza, estimula e contamina. De-me um sorriso aberto, escancarado que me convida para entrar e ficar.

Wednesday, September 14, 2011

VOU FALAR DOS PROS


Vou falar dos pros
Muita gente me pergunta: Voce gosta de morar nos Estados Unidos?
Sim eu gosto. Gosto principalmente da seguranca. E muito tranquilizante poder deixar as portas da casa destrancads, janelas abertas sem grades e travas. Da uma sensacao de liberdade, de paz.
Gosto do transito organizado e ate arrisco dizer educado. Pedestre sempre tem preferencia em qualquer situacao. Gosto muito das estradas e ruas sempre bem conservadas e sinalizadas.
Gosto de entrar e sair dos Bancos com seguranca, sem ter que passar pelo ridiculo de acertar a abertura da porta giratoria, introduzir a bolsa pela passagem de seguranca sendo observada por um guarda desconfiado, armado com a mao no gatilho e sempre de prontidao. E bom demais sair do Banco ou do caixa eletronico sem aquela sensacao paranoica de que alguem esta me seguindo. E bom nao sentir medo de andar na rua usando joias e dinheiro na bolsa. E bom poder respeitar os sinais de transito e ter a certeza de que os outros tambem respeitam. STOP significa PARE. Farol vermelho tambem significa PARE e vale para todos os dias da semana e qualquer hora do dia ou da noite. PARE eh PARE. Nao e o mesmo que olhar para os dois lados e pe na tabua. Tampoco e o mesmo que diminuir a marcha e siga com cuidado.
As ordens, regulamentos e leis tem consistencia e isso e bom. Da a sensacao de ordem e com isso me sinto protegida e segura.
Gosto da maneira como as pessoas se organizam em filas. Ninguem se desespera para ser o primeiro a entrar nos estabelecimentos, nos onibus, metros ou aviao quando a porta se abre. Nao tem correria, empurroes, cotoveladas.
Gosto da praticidade e a falta de burocracia para resolver tramites. Nao precisar de despachante, cartorio e tradutor juramentado e uma bencao!
Gosto da discricao das pessoas e ate mesmo, em muitos casos, da indiferenca principalmente dos vizinhos. Ninguem aparentemente se importa comigo ou presta atencao na minha vida, na minha rotina desde que eu nao faca barulho. Ruido sim e outro departamento. Americano tem pouquissima ou nenhuma tolerancia com ruidos. Quer arrumar briga com vizinho? De uma festa bem animada pelo menos uma vez ao ano ou tenha um caozinho com todas as cordas vocais e que nao tenha sido treinado a nao latir.
Gosto demais do fato de nao ter que passar roupa. Acho fantastico morar em um pais onde as rugas da minha roupa nao significam desleixo! Claro que eu possuo um ferro de passar roupa bem guardado em algum lugar seguro e de dificil acesso. A ultima vez que foi usado deve ter sido para atender as necessidades e caprichos perfeccionistas de algum hospede brasileiro.
Limpar casa tambem e uma tarefa facil, pratica e rapida. Tudo e na base do spray e do paninho. Vapt Vupt e tudo fica cheirozinho. Limpo limpo nem tanto mas “who cares”?

Friday, October 2, 2009

MORREU E DEIXOU MUITA SAUDADE

E sabado. Meu corpo desperta sozinho por volta das nove da manha. Estico meus bracos e pernas e rolo para o outro lado da cama. Tom (meu namorado, futuro marido) havia saido bem cedo. Ele e construtor e estava trabalhando em um projeto do outro lado da cidade.
Quarto escuro, somente uma faixa estreita da luz do sol atravessa indiscretamente pela cortina e invade minha privacidade. Ignoro os apelos do sol, me aconchego ao conforto dos lencoes macios cheirando a jasmim. O mundo la fora grita meu nome, me sacode.
Ouco vozes misturadas ao ruido estridente dos motores dos carros. Uma parede fina de drywall (papel e madeira) separa o quarto da lavenderia coletiva do edificio e nao consegue abafar o turbilhao e o trepidar frenetico das maquinas de lavar e secar roupas.
OK! Falo em voz alta. Voces venceram! Prometo que muito em breve terei minha casinha com arvore e rede no quintal, bouganvillia, margaridas, girassois, passarinhos, borboletas e vizinhos o mais distante possivel.
Resignadamente me levanto e preguicosamente me arrasto ate a cozinha. Enquanto preparo o café instantaneo, organizo mentalmente a agenda do dia: As 11:00 encontro com uma amiga, super-mercado, lavar roupa, acertar detalhes que faltam para o casamento. Casamento! Meu pensamento se detem neste topico.
Café esta pronto. Sento-me a mesa e saboreio o cafe preto, quente e amargo. Tom e eu vamos nos casar em menos de dois meses e ainda faltam acertar milhoes de detalhes.
O sentido de urgencia misturado a cafeina acelera meus movimentos. Rapidamente me levanto, tomo uma ducha quente como sempre e pe na areia.
Droga! Uma mistura de raiva e frustracao enche meu peito e dilatam minhas veias.
Tom foi trabalhar de carona com o socio, deixou seu carro estacionado atras do meu e carregou a chave. Ou seja: Estou presa, imobilizada dentro deste apartamento. Praticamente, dentro de quatro paredes. Sem carro nada feito. Nao vou a lugar algum.
Tentando recuperar a calma, respiro fundo, me atiro descuidadamente na poltrona da sala enfrente a janela.
Distraio meus pensamentos e ate me divirto olhando o jardim do lado de fora. Os gatinhos passeam e espreguicam-se ao sol. As flores estao lindas e a grama verde como nunca.
O telephone toca. Minha mae do outro lado. Coincidencia. Estava mesmo pensando em telefonar para ela.
A voz da minha mae esta calma e serena:
- Filha, o papai..
Estas tres palavras ditas do outro lado da linha, a sete mil e tantos kilometros de distancia, foram o suficiente para eu entender que a voz do meu coracao ou da minha intuicao dizia que algo muito pesado estaria para cair sobre mim.
Minha mae continua: - O papai faleceu, ele se foi.
19 de agosto de 1999 meu pai faleceu aos 75 anos, 15 dias depois de seu aniversario.
O sol brilhava la fora mas fazia tanto frio naquele momento, meu mundo desabou, o universo todo caiu com toda a forca sobre mim, a terra se abriu.
Chorando desconsoladamente, como munca havia chorado antes, solucando e tentando falar ao mesmo tempo, procurava em vao entender a dura e cruel realidade da vida.
Enquanto tentava digerir o gosto amargo da sua partida brusca e sem direito a um adeus, recapitulava fracoes da sua existencia ligadas a minha historia.
A primeira e nitida lembranca da minha infancia junto ao papai e da epoca em que eu tinha talvez tres anos de idade.
Papai era amante da musica. Ele me introduziu aos grandes e imortais compositores e a boa musica.   Lembro do meu pai sentado no chao, com os ouvidos grudados ao alto-falante da antiga“vitrola”. Movel grande de madeira lustrosa e clara. O som vibrava estridentemente e enchia cada canto daquela sala espacosa e vazia. Todos em casa ouviamos o som dos Demonios da Garoa, Charles Aznavour, musicas sacras corais, musicas classicas e instrumentais, Edit Piaf, Willie Nelson, Frank Sinatra, Rita Pavone, Domenico Modugno, Ray Charles, Ray Connif, Mirrele Matieu, Louis Amstrong e muitos outros.
Eu ficava sempre atenta esperando a hora que o papai abrisse “a vitrola” e colocasse o LP para girar. Nao tinha preferencia quanto a musica que faria vibrar os alto-falantes. Qualquer que fosse a escolha do dia, ou do momento me fazia feliz. Lembro nitidamente que a melodia, ritmo e poesia das musicas que papai ouvia me traziam conforto e alegria. Ate hoje a musica me absorve, fala no mais intimo do meu ser, envolve meu corpo e alma como um cobertor aveludado e macio.
Assim como aprendi a gostar e apreciar musica, tambem desenvolvi um gosto muito agucado pelo sorvete e sobremesas em geral. Todos os dias tinhamos que ter um docinho depois das refeicoes. Papai se sentava a mesa e antes da a primeira garfada, perguntava a minha mae: Qual sera a sobremesa? - A pergunta acompanhava o mesmo sorriso de uma crianca marota.
A sobremesa era um evento especial e festivo. Quando o prato era posto no centro da mesa, aplaudiamos com entusiasmo, seguindo a liderenca e o exemplo do papai: - Oba!!! Hummmmmmm e vagarosamente deliciavamos ate a ultima migalha do manjar.
Uma das muitas pequenas coisas que trazem a memoria do meu pai e sorvete. Especialmente o de milho verde e o de abacate. Papai conhecia todas as melhores sorveterias das cidades onde morava ou visitava. Era muito comum que ele indicara a soveteria “tal” como o ponto principal ou turistico da cidade: -”O melhor sorvete do mundo”! Frase favorita que ficou na historia da nossa familia.
Papai era um observador intuitivo das pessoas e lugares, alem de ser um otimo ouvinte. Ele sempre dizia que sao poucas as pessoas que sabem ouvir. Com todas essas abilidades, ele era um otimo escritor e contador de historias. Gostava de narrar anedotas veridicas de fatos que envolviam geralmente colegas pastores ou membros das igrejas. Papai ria tanto das suas proprias piadas que mal conseguia chegar ao final da historia. Por mais que o conto nao tivesse graca alguma, ninguem consegui ficar serio. O riso do papai era epidemicamente contagiante.
Desde muito pequena, domingo apos domingo, religiosamente ia a igreja. Filha de pastor tinha que dar o exemplo. Nao era uma opcao, era obrigacao. Sentada nos bancos duros de madeira, ao lado de minha mae, ouvia os sermoes do meu pai. Recostava a cabeca no colo de mamae e adormecia serenamente enquanto papai ministrava o sermao. De tanto em tanto, me despertava com o som das musicas de louvor cantadas pela congressao ou o coral.
Com o passar do tempo, comecei a entender e a apreciar as mensagens e ja nao dormia durante os cultos. Sentia orgulho de ver meu pai no pulpito, ministrando e sendo ouvido atentamente por tantas pessoas. Ele era um grande orador, era sabio, extremamente carismatico e culto. Tinha seu proprio estilo. Voz suave, vocabulario simples e didatico, arrancava risos e lagrimas dos ouvintes.
Lembro muito de um dos seus sermoes entitulado:” …Foi-se sem deixar de si saudades”….
Baseado no livro da Biblia - II Corinthias 21:20. Refere-se a vida do rei Jeorao, que reinou 8 anos em Jerusalem. Esse rei foi tao ruim, tao mal que morreu sem deixar saudades.
O desafio da mensagem e que precisamos usar as oportunidades, habilidades, motivacao, virtudes e potencial que Deus nos da para criar e fazer o bem porque assim quando chegar nosso final iremos deixar saudades nos coracoes dos que ficam.
Papai deixou muita saudade. Ele viveu plenamente aquilo que pregava e ensinava.
Quando ele se foi, comecei a mentalizar, a pensar mais nao so na vida dele, na sua historia e nos seus ensinamentos que foram tantos. Me tornei mais consciente e vigilante da minha propria existencia.
Nao foi possivel ir ao seu funeral e enterro. Nao tive a oportunidade de dar-lhe um abraco um beijo, um adeus. Ficou faltando este capitulo para finalizar na minha mente o final da vida preciosa do meu pai. Por este motivo, me recusei a visitar seu tumulo quando voltei ao Brasil depois da sua morte.
Na minha lembranca, permanece vivo o quadro alegre do nosso ultimo Natal ano de 1999 na cidade de Sao Pedro, onde ele e minha mae moravam. Recordo seu sorriso alegre, as piadas e a felicidade que nao conseguia dissimular por ter todos os filhos, genros e netos juntos a mesa trocando presentes de amigo secreto, comendo a ceia de Natal, peru com pessego em calda e o delicioso e esperado PAVE DE DOCE DE LEITE.

Papai viveu e deixou de si muita saudade.