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Thursday, May 29, 2014

Apesar de tudo sou brasileira



 
 Mesmo depois de viver tantos anos nos Estados Unidos, o Brasil, minha patria-mae nao se desintegrou aqui dentro de mim. Meu DNA continua o mesmo e o Brasil esta muito vivo em mim. Continua intacto, sorridente, alegre, barulhento, pobre, rico, misturado, divertido, quente, bagucado, gostoso, saboroso, latino, perigoso, imperfeito, chuvoso, verde, amarelo e de todas as cores.
Nao substitui a minha cultura por outra.  

 Minhas raizes sao fortes e profundas. E impossivel arrancar, muito dificil de cortar nem se eu quisesse mas eu nao quis e nao quero.  Sempre que ouco o hino Nacional brasileiro me da aquele no na garganta.  E uma emocao inexplicavelmente forte. So o brasileiro expatriado como eu,  entende essa emocao que o hino nacional causa na gente.
  
 Nao. Nao apaguei da minha memoria e do meu coracao, todos os anos que vivi no Brasil. Por sinal, foram eles a maior  e a melhor parte da minha vida.  
 Foi no Brasil que eu nasci, aprendi a andar e a falar. Minha primeira lingua e o portugues. Falo muito bem o ingles e o espanhol mas quando bate aquela emocao forte ou de  raiva, de medo de dor ou amor, e o portugues que aflora primeiro. Em portugues eu consigo expresser com mais clareza e fluencia, meus sentimentos mais ocultos e fortes.

Foi la no Brasil que eu cresci, fui a escola, me apaixonei pela primeira vez e dei o primeiro beijo.  Foi no Brasil que aprendi a nadar, a andar de biclicleta, a gostar de musica, a tocar piano, a arranhar um violao, a dancar e a sambar.  Foi no Brasil que aprendi a dirigir e foi la que tirei minha primeira carteira de motorista. Foi no Brasil que tive meu primeiro emprego. Foi no Brasil que me tornei mae. Meus pais eram brasileiros, meus filhos sao brasileiros, meu neto e brasileiro, meus irmaos, tios, primos e tambem muitos amigos queridos.
Foi no Brasil que aprendi a sorrir de dentro pra fora. Foi no Brasil que  aprendi a dar gargalhada, a falar "aborbrinha" e a jogar conversa fora.  Foi no Brasil que aprendi a abracar apertado e demorado e a chorar quando sinto vontade.  Foi no Brasil que aprendi a falar com Deus. Foi no Brasil que aprendi e entendi o que e sentir saudades porque saudades so brasileiro  como eu sabe o que e. 
Sinto muito orgulho de ser brasileira e de ter nascido onde eu nasci.



Friday, January 10, 2014

Brasleiro tem o vicio de falar mal do Brasil.





                              



Realmente parece que é um vício do brasileiro falar mal do Brasil e apoiar qualquer um  que esculhambe com o Brasil e com a nossa cultura como se outros paises fossem livres de defeitos.

Quantas vezes ouço frases do tipo “é por isso que somos terceiro mundo” , “por isso que o Brasil não vai pra frente” , " Isso so acontece no Brasil" ou "Eu amo meu pais mas....."   Frases como essas são sintomas latentes de um preconceito bem incrustado no inconsciente coletivo de muitos brasileiros.   Eh o complexo de vira-latas muito bem dito por Nelson Rodrigues.

Outro lado desse fenômeno é crer que países desenvolvidos, sobretudo na América do Norte e Europa, são melhores do que o Brasil em tudo. Eu moro nos Estados Unidos há muitos anos. Já convivi o suficiente com essa cultura para entender que aqui não e um Shan-gri-la onde tudo funciona. Brasileiro, pela própria falta de auto-estima nacional e o complexo de inferioridade tem a tendência de idealizar que o gramado alheio e sempre mais verde.  Não quero fazer comparações ou dizer que Estados Unidos é isso ou aquilo, mas a experiência real e de que não há esse "primeiro mundo" uniformizado, asséptico, perfeito da mesma forma que não existe um "terceiro mundo" igual em toda parte, sempre sujo e violento. O que há são pessoas, lugares e um mundo muito maior e muito mais complexo do que se pensa.

Enxergar os problemas e debater com objetividade, inteligencia e respeito sobre os mesmos me parece uma coisa boa e positiva mas para isso e necessario ter conhecimento da nossa historia e entender bem a cultura brasileira antes de mais nada.

Mas enfim, o que eu quero mesmo e comentar sobre o deslumbramento de alguns brasileiros, desse brasileiro que sofre da síndrome do complexo de vira-latas. 
Esse tipo de brasileiro que acha o Brasil o pior pais do mundo e só o que vê lá fora é bom e bonito.
Esse cidadão não compreende porque tantos estrangeiros sao apaixonados pelo Brasil e que primeiro mundo e uma miragem e que nem sempre a grama do vizinho e mais verde.


Esse e o brasileiro narciso às avessas, que cospe na própria imagem. Ja dizia o pensador Nelson Rodrigues.




Wednesday, September 14, 2011

VOU FALAR DOS PROS


Vou falar dos pros
Muita gente me pergunta: Voce gosta de morar nos Estados Unidos?
Sim eu gosto. Gosto principalmente da seguranca. E muito tranquilizante poder deixar as portas da casa destrancads, janelas abertas sem grades e travas. Da uma sensacao de liberdade, de paz.
Gosto do transito organizado e ate arrisco dizer educado. Pedestre sempre tem preferencia em qualquer situacao. Gosto muito das estradas e ruas sempre bem conservadas e sinalizadas.
Gosto de entrar e sair dos Bancos com seguranca, sem ter que passar pelo ridiculo de acertar a abertura da porta giratoria, introduzir a bolsa pela passagem de seguranca sendo observada por um guarda desconfiado, armado com a mao no gatilho e sempre de prontidao. E bom demais sair do Banco ou do caixa eletronico sem aquela sensacao paranoica de que alguem esta me seguindo. E bom nao sentir medo de andar na rua usando joias e dinheiro na bolsa. E bom poder respeitar os sinais de transito e ter a certeza de que os outros tambem respeitam. STOP significa PARE. Farol vermelho tambem significa PARE e vale para todos os dias da semana e qualquer hora do dia ou da noite. PARE eh PARE. Nao e o mesmo que olhar para os dois lados e pe na tabua. Tampoco e o mesmo que diminuir a marcha e siga com cuidado.
As ordens, regulamentos e leis tem consistencia e isso e bom. Da a sensacao de ordem e com isso me sinto protegida e segura.
Gosto da maneira como as pessoas se organizam em filas. Ninguem se desespera para ser o primeiro a entrar nos estabelecimentos, nos onibus, metros ou aviao quando a porta se abre. Nao tem correria, empurroes, cotoveladas.
Gosto da praticidade e a falta de burocracia para resolver tramites. Nao precisar de despachante, cartorio e tradutor juramentado e uma bencao!
Gosto da discricao das pessoas e ate mesmo, em muitos casos, da indiferenca principalmente dos vizinhos. Ninguem aparentemente se importa comigo ou presta atencao na minha vida, na minha rotina desde que eu nao faca barulho. Ruido sim e outro departamento. Americano tem pouquissima ou nenhuma tolerancia com ruidos. Quer arrumar briga com vizinho? De uma festa bem animada pelo menos uma vez ao ano ou tenha um caozinho com todas as cordas vocais e que nao tenha sido treinado a nao latir.
Gosto demais do fato de nao ter que passar roupa. Acho fantastico morar em um pais onde as rugas da minha roupa nao significam desleixo! Claro que eu possuo um ferro de passar roupa bem guardado em algum lugar seguro e de dificil acesso. A ultima vez que foi usado deve ter sido para atender as necessidades e caprichos perfeccionistas de algum hospede brasileiro.
Limpar casa tambem e uma tarefa facil, pratica e rapida. Tudo e na base do spray e do paninho. Vapt Vupt e tudo fica cheirozinho. Limpo limpo nem tanto mas “who cares”?

Friday, October 2, 2009

MORREU E DEIXOU MUITA SAUDADE

E sabado. Meu corpo desperta sozinho por volta das nove da manha. Estico meus bracos e pernas e rolo para o outro lado da cama. Tom (meu namorado, futuro marido) havia saido bem cedo. Ele e construtor e estava trabalhando em um projeto do outro lado da cidade.
Quarto escuro, somente uma faixa estreita da luz do sol atravessa indiscretamente pela cortina e invade minha privacidade. Ignoro os apelos do sol, me aconchego ao conforto dos lencoes macios cheirando a jasmim. O mundo la fora grita meu nome, me sacode.
Ouco vozes misturadas ao ruido estridente dos motores dos carros. Uma parede fina de drywall (papel e madeira) separa o quarto da lavenderia coletiva do edificio e nao consegue abafar o turbilhao e o trepidar frenetico das maquinas de lavar e secar roupas.
OK! Falo em voz alta. Voces venceram! Prometo que muito em breve terei minha casinha com arvore e rede no quintal, bouganvillia, margaridas, girassois, passarinhos, borboletas e vizinhos o mais distante possivel.
Resignadamente me levanto e preguicosamente me arrasto ate a cozinha. Enquanto preparo o café instantaneo, organizo mentalmente a agenda do dia: As 11:00 encontro com uma amiga, super-mercado, lavar roupa, acertar detalhes que faltam para o casamento. Casamento! Meu pensamento se detem neste topico.
Café esta pronto. Sento-me a mesa e saboreio o cafe preto, quente e amargo. Tom e eu vamos nos casar em menos de dois meses e ainda faltam acertar milhoes de detalhes.
O sentido de urgencia misturado a cafeina acelera meus movimentos. Rapidamente me levanto, tomo uma ducha quente como sempre e pe na areia.
Droga! Uma mistura de raiva e frustracao enche meu peito e dilatam minhas veias.
Tom foi trabalhar de carona com o socio, deixou seu carro estacionado atras do meu e carregou a chave. Ou seja: Estou presa, imobilizada dentro deste apartamento. Praticamente, dentro de quatro paredes. Sem carro nada feito. Nao vou a lugar algum.
Tentando recuperar a calma, respiro fundo, me atiro descuidadamente na poltrona da sala enfrente a janela.
Distraio meus pensamentos e ate me divirto olhando o jardim do lado de fora. Os gatinhos passeam e espreguicam-se ao sol. As flores estao lindas e a grama verde como nunca.
O telephone toca. Minha mae do outro lado. Coincidencia. Estava mesmo pensando em telefonar para ela.
A voz da minha mae esta calma e serena:
- Filha, o papai..
Estas tres palavras ditas do outro lado da linha, a sete mil e tantos kilometros de distancia, foram o suficiente para eu entender que a voz do meu coracao ou da minha intuicao dizia que algo muito pesado estaria para cair sobre mim.
Minha mae continua: - O papai faleceu, ele se foi.
19 de agosto de 1999 meu pai faleceu aos 75 anos, 15 dias depois de seu aniversario.
O sol brilhava la fora mas fazia tanto frio naquele momento, meu mundo desabou, o universo todo caiu com toda a forca sobre mim, a terra se abriu.
Chorando desconsoladamente, como munca havia chorado antes, solucando e tentando falar ao mesmo tempo, procurava em vao entender a dura e cruel realidade da vida.
Enquanto tentava digerir o gosto amargo da sua partida brusca e sem direito a um adeus, recapitulava fracoes da sua existencia ligadas a minha historia.
A primeira e nitida lembranca da minha infancia junto ao papai e da epoca em que eu tinha talvez tres anos de idade.
Papai era amante da musica. Ele me introduziu aos grandes e imortais compositores e a boa musica.   Lembro do meu pai sentado no chao, com os ouvidos grudados ao alto-falante da antiga“vitrola”. Movel grande de madeira lustrosa e clara. O som vibrava estridentemente e enchia cada canto daquela sala espacosa e vazia. Todos em casa ouviamos o som dos Demonios da Garoa, Charles Aznavour, musicas sacras corais, musicas classicas e instrumentais, Edit Piaf, Willie Nelson, Frank Sinatra, Rita Pavone, Domenico Modugno, Ray Charles, Ray Connif, Mirrele Matieu, Louis Amstrong e muitos outros.
Eu ficava sempre atenta esperando a hora que o papai abrisse “a vitrola” e colocasse o LP para girar. Nao tinha preferencia quanto a musica que faria vibrar os alto-falantes. Qualquer que fosse a escolha do dia, ou do momento me fazia feliz. Lembro nitidamente que a melodia, ritmo e poesia das musicas que papai ouvia me traziam conforto e alegria. Ate hoje a musica me absorve, fala no mais intimo do meu ser, envolve meu corpo e alma como um cobertor aveludado e macio.
Assim como aprendi a gostar e apreciar musica, tambem desenvolvi um gosto muito agucado pelo sorvete e sobremesas em geral. Todos os dias tinhamos que ter um docinho depois das refeicoes. Papai se sentava a mesa e antes da a primeira garfada, perguntava a minha mae: Qual sera a sobremesa? - A pergunta acompanhava o mesmo sorriso de uma crianca marota.
A sobremesa era um evento especial e festivo. Quando o prato era posto no centro da mesa, aplaudiamos com entusiasmo, seguindo a liderenca e o exemplo do papai: - Oba!!! Hummmmmmm e vagarosamente deliciavamos ate a ultima migalha do manjar.
Uma das muitas pequenas coisas que trazem a memoria do meu pai e sorvete. Especialmente o de milho verde e o de abacate. Papai conhecia todas as melhores sorveterias das cidades onde morava ou visitava. Era muito comum que ele indicara a soveteria “tal” como o ponto principal ou turistico da cidade: -”O melhor sorvete do mundo”! Frase favorita que ficou na historia da nossa familia.
Papai era um observador intuitivo das pessoas e lugares, alem de ser um otimo ouvinte. Ele sempre dizia que sao poucas as pessoas que sabem ouvir. Com todas essas abilidades, ele era um otimo escritor e contador de historias. Gostava de narrar anedotas veridicas de fatos que envolviam geralmente colegas pastores ou membros das igrejas. Papai ria tanto das suas proprias piadas que mal conseguia chegar ao final da historia. Por mais que o conto nao tivesse graca alguma, ninguem consegui ficar serio. O riso do papai era epidemicamente contagiante.
Desde muito pequena, domingo apos domingo, religiosamente ia a igreja. Filha de pastor tinha que dar o exemplo. Nao era uma opcao, era obrigacao. Sentada nos bancos duros de madeira, ao lado de minha mae, ouvia os sermoes do meu pai. Recostava a cabeca no colo de mamae e adormecia serenamente enquanto papai ministrava o sermao. De tanto em tanto, me despertava com o som das musicas de louvor cantadas pela congressao ou o coral.
Com o passar do tempo, comecei a entender e a apreciar as mensagens e ja nao dormia durante os cultos. Sentia orgulho de ver meu pai no pulpito, ministrando e sendo ouvido atentamente por tantas pessoas. Ele era um grande orador, era sabio, extremamente carismatico e culto. Tinha seu proprio estilo. Voz suave, vocabulario simples e didatico, arrancava risos e lagrimas dos ouvintes.
Lembro muito de um dos seus sermoes entitulado:” …Foi-se sem deixar de si saudades”….
Baseado no livro da Biblia - II Corinthias 21:20. Refere-se a vida do rei Jeorao, que reinou 8 anos em Jerusalem. Esse rei foi tao ruim, tao mal que morreu sem deixar saudades.
O desafio da mensagem e que precisamos usar as oportunidades, habilidades, motivacao, virtudes e potencial que Deus nos da para criar e fazer o bem porque assim quando chegar nosso final iremos deixar saudades nos coracoes dos que ficam.
Papai deixou muita saudade. Ele viveu plenamente aquilo que pregava e ensinava.
Quando ele se foi, comecei a mentalizar, a pensar mais nao so na vida dele, na sua historia e nos seus ensinamentos que foram tantos. Me tornei mais consciente e vigilante da minha propria existencia.
Nao foi possivel ir ao seu funeral e enterro. Nao tive a oportunidade de dar-lhe um abraco um beijo, um adeus. Ficou faltando este capitulo para finalizar na minha mente o final da vida preciosa do meu pai. Por este motivo, me recusei a visitar seu tumulo quando voltei ao Brasil depois da sua morte.
Na minha lembranca, permanece vivo o quadro alegre do nosso ultimo Natal ano de 1999 na cidade de Sao Pedro, onde ele e minha mae moravam. Recordo seu sorriso alegre, as piadas e a felicidade que nao conseguia dissimular por ter todos os filhos, genros e netos juntos a mesa trocando presentes de amigo secreto, comendo a ceia de Natal, peru com pessego em calda e o delicioso e esperado PAVE DE DOCE DE LEITE.

Papai viveu e deixou de si muita saudade.

Saturday, June 6, 2009

NAO PAGAR MULTA DA CADEIA

Nao fui ao trabalho hoje para resolver varios assuntos pessoais. Porem, nao fiz nada do que havia planejado. Fui surpreendida por um imprevisto que ate agora me parece pesadelo.

Estava indo aos meus afazeres, dirigindo ainda perto de casa, quando notei que uma viatura da policia estava me seguindo. Diminui a velocidade ate que finalmente as luzes da viatura comecaram a piscar escandalozamente. Parei em um estacionamento de um centrinho comercial, o policial se aproximou a minha janela para informar educadamente que eu estava acima da velocidade permitida. Pediu meus documentos e como de praxe, foi ao computador conferir meus dados. Ate ai, tudo normal dentro do esperado. Como ja conheco a rotina, me mantive tranquila aguardando a multa. Pensava somente nos $$$$ que iria custar a brincadeira.
Depois de uns 5 minutos, o policial se aproxima novamente a minha janela e diz: Voce sabe que voce tem uma ordem de prisao?
No moento, pensei que havia ouvido mal, que o policial estivesse me confundindo, ou que estivesse de brincadeira. Mas o olhar penetrate e a voz grave, indicavam que o assunto era comigo e que era serio. Gelei, minhas pernas amoleceram, meu coracao disparou. Como? Eu? O senhor deve estar enganado. Nunca cometi crime para ter uma ordem de prisao. O policial olhando bem dentro dos meus olhos diz: E melhor voce falar a verdade para nao piorar as coisas para o seu lado.
Pronto! Ja nao tinha mais duvidas de que estava envolvida em algum problema bem serio. Mil pensamentos corriam aceleradamente pela minha cabeca.
Uma outra viatura aparece no local. O policial pede para eu sair do carro e fecha-lo porque eu teria que ser levada a delegacia. Cumprindo ordens, deixei minha bolsa dentro do carro e levei somente as chaves e o celular.
Naquele momento, ja nao sentia meu corpo. Era como se minha alma tivesse despegado e sobrevoasse meu corpo. Uma sensacao de vazio indescritivel tomou conta de mim.
Calmamente, de cabeca baixa, sem olhar para os lados me dirigi a viatura. Nao tinha certeza se iria no banco da frente ou no de tras como passageira. De qualquer forma seria desagradavel e humilhante. O policial pede para eu virar de costas porque ele teria que me algemar.
Algemar? Porque? Nao vou fugir, nem sei porque estou sendo presa, sou uma cidada correta, nunca cometi um crime, nao sou violenta, nao sou agressiva, nao matei, nao roubei, nao tenho arma.
Sao as regras. Toda as pessoa com ordem de prisao, precisam ser algemadas ao serem transportada.
Ate entao eu desconhecia completamente o motivo da ordem de prissao. O policial disse que talvez fosse uma multa que levei em 2005 e que ainda estava pendente de pagamento.
Jamais recebi um comunicado da tal multa. Alias, telefonei ao Departamento de Transito, assim como tambem a policia para saber o valor da infracao para que eu pudesse providenciar o pagamento. Porem, a informacao era de que nao constava nenhum registro de multa nos sitemas. Diante disto, descansei, achando que talvez o policial tivesse esquecido de processa-la. Santa inocencia a minha!
Quando estava sendo algemada, varios sentimentos dominavam as minhas entranhas: vergonha como nunca havia sentido antes em toda a minha vida, humilhacao, solidao, medo, duvida, incerteza, desconfianca. Pensava nos meus filhos, no Pedrinho, meu netinho inocente que acha o maximo o carro de policia, se encanta com a sirene. Pensava nos meus pais que me ensinaram o respeito, a honestidade o amor ao proximo e sobretudo a fe e o amor a Deus. Pensava no meu marido, no respeito e na admiracao que ele sente por mim.
Quando chegamos a delegacia, uma policial me revistou para se assegurar que eu nao portava armas. Mais uma vez um procedimento padrao. Nao importa se a pessoa matou , estuprou, assaltou um banco de maos armadas, furtiou um pirulito no armazem ou nao pagou uma multa de transito. O tratamento e o mesmo: Padrao e uniforme como e tudo aqui na terra do tio Sam.
A policial fechou ruidosamente as grades e trancou a cela. Alguns minutos depois um outro policial aparece para fazer algumas perguntas de rotina tais como: toma medicamento? Tem algum problema de saude? Naquele momento comecei a me apavorar ainda mais porque pelo que entendo, e a burocracia do processo de admissao. Depois seguiria a foto com numero, impressao digital e o uniforme alaranjado.
O policial teve a ousadia de perguntar se eu tinha alguma duvida: Aproveitei a oportunidade e afirmei que SIM: Preciso saber o motivo de estar aqui. A resposta foi que iria investigar e me daria uma resposta em uns 25 interminaveis minutos.
Menos mal que eu estava sozinha na cela. Tentei relaxar, as lagrimas rolavam e eu so pedia a Deus para que o pesadelo acabasse logo e que tivesse um final feliz.
Realmente, meia hora depois o mesmo policial que tinha me dado "carona" para a delegacia, abriu a porta e me disse para sair pois ele tinha conseguido me liberar sem terem me registrado. Se tivesse sido admitida como manda a lei, eu ficaria fichada, com antecedentes policiais e teria que ser transferida para uma penitenciaria barra pesada. Ficaria presa ate ter uma audiencia com o juiz, pagar a multa e sabese la o que mais.
O policial me transportou ate o local onde estava meu carro. Evidentemente ele precisou me algemar novamente e mais uma vez se explicou: sao os regulamentos que eu tenho que cumprir. Gentilmente, me garantiu que iria colocar a algema bem folgadinha pra ter certeza de que nao iria me machucar....(que amorzinho) me comprou uma garrafinha de agua gelada e foi puxando um papo amigavel ate o destino. Explicou que o motivo da ordem de prisao era a tal multa que nao tinha sido paga e que eu deveria com urgencia, me apresentar ao forum para resolver a pendencia.
Nem sei como consegui dirigir ate chegar em casa. Eu estava traumatizada, desgastada e sem energias. Cheguei em casa, meu porto seguro. Tranquei a porta e ali fiquei quietinha, com medo do mundo la fora.