Sunday, October 9, 2011

MAIS UMA CHANCE - MINHA EXPERIENCIA DE QUASE MORTE

Por que sera que algumas pessoas passam pela experiencia de quase morte? Seria para valorizar mais a vida, repensar e ajustar as prioridades, desenvolver a espiritualidade, perder o medo do desconhecido fantasma chamado morte?

Tudo comeceu em um sala cirurgica onde eu seria submetida a uma operacao para remendar meu braco esquerdo quebrado em varias partes resultado de um acidente de carro quase fatal.
O centro cirurgico era muito frio, bem iluminado, decorado com aparelhos e ferramentas impecavelmente organizadas.  Um forte cheiro angustiante de alcool misturado a formol exalava no ar. Estava eu la completamente so e cheia de medos. Resignadamente aguardava a aplicacao da anestesia geral, deitada em uma maca coberta com lencois verde esperanca.

O anestesista finalmente iniciou o procedimento.   A distancia, eu ouvia as vozes sussurradas dos medicos e assistentes, o som estridente e desafinado das ferramentas  nas bandeijas metalicas e o "bib" dos monitores em uma cadencia ritimada. Fechei os olhos cansados. Desliguei, apaguei, dormi o sono profundo e viajei. Quase nao voltei para contar essa historia.

Perdi a nocao do tempo.  Lembro  apenas de deslizar vagarosamente dentro de um tunel que me lancou  delicadamente a um espaco vazio. Um campo infinito de uma luminozidade incomparavel e indescritivel.  Era a total ausencia da escuridao.  Um brilho que nao ofuscava. Nao incomodava. Era bom. Era perfeito.

 Flutuei nessa outra dimensao e senti muita paz, calma, leveza e uma sensacao de bem estar como jamais tinha sentido antes.
De repente meu corpo fisico ouvia passos rapidos, vozes apreensivas chamando meu nome. Abri os olhos e despertei daquilo que pensava ser um sonho.  Aquele espaco vazio, infinito e belo  seria o ceu? A porta de entrada do ceu?

Mais tarde, ja no quarto do hospital, o medico me informou da dificuldade que tive para voltar da anestesia.
Entendi entao que o tunel, o espaco infinito, o brilho, a paz total e absoluta realmente aconteceram. Enquanto os medicos tratavam meu corpo, meu espirito estava tambem sendo curado.

Hoje tenho fe e a plena conviccao de que a morte nao e o fim. O ser humano e muito mais do que um corpo. Somos espirito tambem. Tenho certeza disso. A existencia eterna e real. Deus, o Criador, essa energia universal que nos mobiliza, nos une e nos da sentido a vida existe. Uma outra dimensao onde nossa consciencia vive em sintonia com o amor, a uniao,  paz absoluta e harmonia tambem existe.

Essa experiencia de quase morte foi incrivel ! Foi uma viagem solitaria, nao planejada a um destinho desconhecido, sem roteiro, sem direito a fotos ou souvenirs. Mas foi sem duvida uma viagem inesquecivel, forte e transformadora. Impossivel de esquecer.

 

Friday, September 23, 2011

SORRISO

Estou cansada de meios sorrisos. Sorrisos de faz de conta, sorrisos palidos, sem vida, sorriso estudado, ensaiado, lacrado com medo de se dar.

Quero um sorriso daqueles que brota n'alma e cresce no coracao ainda que seja triste, timido. De-me um sorrio espontaneo, que brilha nos olhos, sorriso amigo, sincero, desprendido, sem medo. Sorriso que energiza, estimula e contamina. De-me um sorriso aberto, escancarado que me convida para entrar e ficar.

Wednesday, September 14, 2011

VOU FALAR DOS PROS


Vou falar dos pros
Muita gente me pergunta: Voce gosta de morar nos Estados Unidos?
Sim eu gosto. Gosto principalmente da seguranca. E muito tranquilizante poder deixar as portas da casa destrancads, janelas abertas sem grades e travas. Da uma sensacao de liberdade, de paz.
Gosto do transito organizado e ate arrisco dizer educado. Pedestre sempre tem preferencia em qualquer situacao. Gosto muito das estradas e ruas sempre bem conservadas e sinalizadas.
Gosto de entrar e sair dos Bancos com seguranca, sem ter que passar pelo ridiculo de acertar a abertura da porta giratoria, introduzir a bolsa pela passagem de seguranca sendo observada por um guarda desconfiado, armado com a mao no gatilho e sempre de prontidao. E bom demais sair do Banco ou do caixa eletronico sem aquela sensacao paranoica de que alguem esta me seguindo. E bom nao sentir medo de andar na rua usando joias e dinheiro na bolsa. E bom poder respeitar os sinais de transito e ter a certeza de que os outros tambem respeitam. STOP significa PARE. Farol vermelho tambem significa PARE e vale para todos os dias da semana e qualquer hora do dia ou da noite. PARE eh PARE. Nao e o mesmo que olhar para os dois lados e pe na tabua. Tampoco e o mesmo que diminuir a marcha e siga com cuidado.
As ordens, regulamentos e leis tem consistencia e isso e bom. Da a sensacao de ordem e com isso me sinto protegida e segura.
Gosto da maneira como as pessoas se organizam em filas. Ninguem se desespera para ser o primeiro a entrar nos estabelecimentos, nos onibus, metros ou aviao quando a porta se abre. Nao tem correria, empurroes, cotoveladas.
Gosto da praticidade e a falta de burocracia para resolver tramites. Nao precisar de despachante, cartorio e tradutor juramentado e uma bencao!
Gosto da discricao das pessoas e ate mesmo, em muitos casos, da indiferenca principalmente dos vizinhos. Ninguem aparentemente se importa comigo ou presta atencao na minha vida, na minha rotina desde que eu nao faca barulho. Ruido sim e outro departamento. Americano tem pouquissima ou nenhuma tolerancia com ruidos. Quer arrumar briga com vizinho? De uma festa bem animada pelo menos uma vez ao ano ou tenha um caozinho com todas as cordas vocais e que nao tenha sido treinado a nao latir.
Gosto demais do fato de nao ter que passar roupa. Acho fantastico morar em um pais onde as rugas da minha roupa nao significam desleixo! Claro que eu possuo um ferro de passar roupa bem guardado em algum lugar seguro e de dificil acesso. A ultima vez que foi usado deve ter sido para atender as necessidades e caprichos perfeccionistas de algum hospede brasileiro.
Limpar casa tambem e uma tarefa facil, pratica e rapida. Tudo e na base do spray e do paninho. Vapt Vupt e tudo fica cheirozinho. Limpo limpo nem tanto mas “who cares”?

Friday, October 2, 2009

MORREU E DEIXOU MUITA SAUDADE

E sabado. Meu corpo desperta sozinho por volta das nove da manha. Estico meus bracos e pernas e rolo para o outro lado da cama. Tom (meu namorado, futuro marido) havia saido bem cedo. Ele e construtor e estava trabalhando em um projeto do outro lado da cidade.
Quarto escuro, somente uma faixa estreita da luz do sol atravessa indiscretamente pela cortina e invade minha privacidade. Ignoro os apelos do sol, me aconchego ao conforto dos lencoes macios cheirando a jasmim. O mundo la fora grita meu nome, me sacode.
Ouco vozes misturadas ao ruido estridente dos motores dos carros. Uma parede fina de drywall (papel e madeira) separa o quarto da lavenderia coletiva do edificio e nao consegue abafar o turbilhao e o trepidar frenetico das maquinas de lavar e secar roupas.
OK! Falo em voz alta. Voces venceram! Prometo que muito em breve terei minha casinha com arvore e rede no quintal, bouganvillia, margaridas, girassois, passarinhos, borboletas e vizinhos o mais distante possivel.
Resignadamente me levanto e preguicosamente me arrasto ate a cozinha. Enquanto preparo o café instantaneo, organizo mentalmente a agenda do dia: As 11:00 encontro com uma amiga, super-mercado, lavar roupa, acertar detalhes que faltam para o casamento. Casamento! Meu pensamento se detem neste topico.
Café esta pronto. Sento-me a mesa e saboreio o cafe preto, quente e amargo. Tom e eu vamos nos casar em menos de dois meses e ainda faltam acertar milhoes de detalhes.
O sentido de urgencia misturado a cafeina acelera meus movimentos. Rapidamente me levanto, tomo uma ducha quente como sempre e pe na areia.
Droga! Uma mistura de raiva e frustracao enche meu peito e dilatam minhas veias.
Tom foi trabalhar de carona com o socio, deixou seu carro estacionado atras do meu e carregou a chave. Ou seja: Estou presa, imobilizada dentro deste apartamento. Praticamente, dentro de quatro paredes. Sem carro nada feito. Nao vou a lugar algum.
Tentando recuperar a calma, respiro fundo, me atiro descuidadamente na poltrona da sala enfrente a janela.
Distraio meus pensamentos e ate me divirto olhando o jardim do lado de fora. Os gatinhos passeam e espreguicam-se ao sol. As flores estao lindas e a grama verde como nunca.
O telephone toca. Minha mae do outro lado. Coincidencia. Estava mesmo pensando em telefonar para ela.
A voz da minha mae esta calma e serena:
- Filha, o papai..
Estas tres palavras ditas do outro lado da linha, a sete mil e tantos kilometros de distancia, foram o suficiente para eu entender que a voz do meu coracao ou da minha intuicao dizia que algo muito pesado estaria para cair sobre mim.
Minha mae continua: - O papai faleceu, ele se foi.
19 de agosto de 1999 meu pai faleceu aos 75 anos, 15 dias depois de seu aniversario.
O sol brilhava la fora mas fazia tanto frio naquele momento, meu mundo desabou, o universo todo caiu com toda a forca sobre mim, a terra se abriu.
Chorando desconsoladamente, como munca havia chorado antes, solucando e tentando falar ao mesmo tempo, procurava em vao entender a dura e cruel realidade da vida.
Enquanto tentava digerir o gosto amargo da sua partida brusca e sem direito a um adeus, recapitulava fracoes da sua existencia ligadas a minha historia.
A primeira e nitida lembranca da minha infancia junto ao papai e da epoca em que eu tinha talvez tres anos de idade.
Papai era amante da musica. Ele me introduziu aos grandes e imortais compositores e a boa musica.   Lembro do meu pai sentado no chao, com os ouvidos grudados ao alto-falante da antiga“vitrola”. Movel grande de madeira lustrosa e clara. O som vibrava estridentemente e enchia cada canto daquela sala espacosa e vazia. Todos em casa ouviamos o som dos Demonios da Garoa, Charles Aznavour, musicas sacras corais, musicas classicas e instrumentais, Edit Piaf, Willie Nelson, Frank Sinatra, Rita Pavone, Domenico Modugno, Ray Charles, Ray Connif, Mirrele Matieu, Louis Amstrong e muitos outros.
Eu ficava sempre atenta esperando a hora que o papai abrisse “a vitrola” e colocasse o LP para girar. Nao tinha preferencia quanto a musica que faria vibrar os alto-falantes. Qualquer que fosse a escolha do dia, ou do momento me fazia feliz. Lembro nitidamente que a melodia, ritmo e poesia das musicas que papai ouvia me traziam conforto e alegria. Ate hoje a musica me absorve, fala no mais intimo do meu ser, envolve meu corpo e alma como um cobertor aveludado e macio.
Assim como aprendi a gostar e apreciar musica, tambem desenvolvi um gosto muito agucado pelo sorvete e sobremesas em geral. Todos os dias tinhamos que ter um docinho depois das refeicoes. Papai se sentava a mesa e antes da a primeira garfada, perguntava a minha mae: Qual sera a sobremesa? - A pergunta acompanhava o mesmo sorriso de uma crianca marota.
A sobremesa era um evento especial e festivo. Quando o prato era posto no centro da mesa, aplaudiamos com entusiasmo, seguindo a liderenca e o exemplo do papai: - Oba!!! Hummmmmmm e vagarosamente deliciavamos ate a ultima migalha do manjar.
Uma das muitas pequenas coisas que trazem a memoria do meu pai e sorvete. Especialmente o de milho verde e o de abacate. Papai conhecia todas as melhores sorveterias das cidades onde morava ou visitava. Era muito comum que ele indicara a soveteria “tal” como o ponto principal ou turistico da cidade: -”O melhor sorvete do mundo”! Frase favorita que ficou na historia da nossa familia.
Papai era um observador intuitivo das pessoas e lugares, alem de ser um otimo ouvinte. Ele sempre dizia que sao poucas as pessoas que sabem ouvir. Com todas essas abilidades, ele era um otimo escritor e contador de historias. Gostava de narrar anedotas veridicas de fatos que envolviam geralmente colegas pastores ou membros das igrejas. Papai ria tanto das suas proprias piadas que mal conseguia chegar ao final da historia. Por mais que o conto nao tivesse graca alguma, ninguem consegui ficar serio. O riso do papai era epidemicamente contagiante.
Desde muito pequena, domingo apos domingo, religiosamente ia a igreja. Filha de pastor tinha que dar o exemplo. Nao era uma opcao, era obrigacao. Sentada nos bancos duros de madeira, ao lado de minha mae, ouvia os sermoes do meu pai. Recostava a cabeca no colo de mamae e adormecia serenamente enquanto papai ministrava o sermao. De tanto em tanto, me despertava com o som das musicas de louvor cantadas pela congressao ou o coral.
Com o passar do tempo, comecei a entender e a apreciar as mensagens e ja nao dormia durante os cultos. Sentia orgulho de ver meu pai no pulpito, ministrando e sendo ouvido atentamente por tantas pessoas. Ele era um grande orador, era sabio, extremamente carismatico e culto. Tinha seu proprio estilo. Voz suave, vocabulario simples e didatico, arrancava risos e lagrimas dos ouvintes.
Lembro muito de um dos seus sermoes entitulado:” …Foi-se sem deixar de si saudades”….
Baseado no livro da Biblia - II Corinthias 21:20. Refere-se a vida do rei Jeorao, que reinou 8 anos em Jerusalem. Esse rei foi tao ruim, tao mal que morreu sem deixar saudades.
O desafio da mensagem e que precisamos usar as oportunidades, habilidades, motivacao, virtudes e potencial que Deus nos da para criar e fazer o bem porque assim quando chegar nosso final iremos deixar saudades nos coracoes dos que ficam.
Papai deixou muita saudade. Ele viveu plenamente aquilo que pregava e ensinava.
Quando ele se foi, comecei a mentalizar, a pensar mais nao so na vida dele, na sua historia e nos seus ensinamentos que foram tantos. Me tornei mais consciente e vigilante da minha propria existencia.
Nao foi possivel ir ao seu funeral e enterro. Nao tive a oportunidade de dar-lhe um abraco um beijo, um adeus. Ficou faltando este capitulo para finalizar na minha mente o final da vida preciosa do meu pai. Por este motivo, me recusei a visitar seu tumulo quando voltei ao Brasil depois da sua morte.
Na minha lembranca, permanece vivo o quadro alegre do nosso ultimo Natal ano de 1999 na cidade de Sao Pedro, onde ele e minha mae moravam. Recordo seu sorriso alegre, as piadas e a felicidade que nao conseguia dissimular por ter todos os filhos, genros e netos juntos a mesa trocando presentes de amigo secreto, comendo a ceia de Natal, peru com pessego em calda e o delicioso e esperado PAVE DE DOCE DE LEITE.

Papai viveu e deixou de si muita saudade.

Tuesday, August 18, 2009

SER MAE

Desejo forte de nutrir, cuidar, acalentar, brincar, proteger, acariciar, mimar, ninar. Sonho de inspirar, criar, fazer a diferenca, marcar presenca, construir, re-nascer, eternizar.
Instinto e sentimento profundo que nasce com a gente, flui naturalmente, floresce e desabrocha com o tempo.
Quando eu era uma menina, brincava de bonecas, sem saber ja treinava e imitava ser mae.
Ganhei minha primeira boneca aos dois anos de idade. Era enorme! Quase maior do que eu, de porcelana, cabelos castanhos cacheados, olhos redondos cor de mel que abriam e fechavam como se fossem de verdade. Usava um vestido branco de lezie, meias da mesma cor e sapatinhos pretos de verniz. Minha mae me advertia para que tomasse muito cuidado com a boneca: Ela e de louca e muito fragil, se nao cuidar direitinho, pode cair e quebrar.
Nao me lembro de ter escolhido um nome para a boneca, mas lembro perfeitamente do cuidado e carinho com que a segurava em meus bracos.
Vinte e dois anos mais tarde, o sonho de ser mae, se torna realidade. Meu marido e eu de maos dadas caminhando pela Avenida Angelica em Sao Paulo, depois de buscar o resultado do exame de gravidez no Laboratorio Fleury, nao podiamos conter a alegria. Nosso desejo era gritar e anunciar ao mundo todo e ate aos desconhecidos que passavam pela rua. Riamos risos descontrolados, mistura de alegria, emocao e de medo. O papel do laboratorio continuava preso em minha mao. O segurava firmemente. Nao conseguia solta-lo e guarda-lo em minha bolsa. Precisava certificar-me a cada minuto, de que o resultado ainda estava la, escrito em letras maiusculas inconfundiveis: POSITIVO.
Sera que estou sonhando? Me perguntava e ao mesmo tempo respondia a mim mesma tentando me convencer. Nao. Nao estou sonhando. E realidade. Estou gravida de verdade. Como pode acontecer uma coisa dessas comigo? Gerar um ser e um bebe crescer dentro da minha barriga? O mesmo acontece com tantas mulheres mas eu? Sera que esta gravidez e a prova de que Deus existe e que Ele ainda confia em mim? Sera que serei capaz de ser mae, de cuidar de uma crianca? Nao, acho que nao. Tenho medo de falhar, de fazer a crianca sofrer e chorar.
Nove meses maravilhosos se passaram e Deus me concedeu o privilegio de ser o instrumento do maior milagre da vida.
Nasceu meu primeiro bebe, uma bonequinha perfeita, de verdade, de carne osso e alma. A embalava em meus bracos bem junto do meu corpo e sentia o palpitar do coracaozinho que agora separado do meu, pulsava sozinho. Incansavelmente passava horas olhando cada movimento, cada suspiro, cada milimetro daquele corpinho fragil. Dificil assimilar que era minha filha, que iria para casa comigo e que a partir de entao, faria parte da minha vida para sempre. O primeiro raminho da minha arvore da vida.
E o amor passou a ter outra dimensao, outro sentido. Amor inexplicavelmente forte e fora de proporcao, incomparavelmente sem medidas, infinito, incondicional e eterno.

Friday, August 14, 2009

PRIMEIRO TRABALHO NA AMERICA

Aos 35 anos, recem-chegada a America, inexperiente e cheia de ilusoes e muita ma informacao, saio em busca do meu primeiro emprego em Los Angeles - CA

Agencia de empregos domesticos me encaminha a uma entrevista para preencher uma posicao de Nanny. Peculiaridade desta vaga e que o bebe ainda esta dentro do ventre materno. Sarah, 42 anos, gravida de 7 meses espera seu primeiro filho.
Os requisitos para a vaga: falar ingles, possuir carro proprio, carteira de motorista, ter experiencia com bebe, alem de ter boa aparencia.
La vou eu dirigindo meu modesto carrinho azul e arriscando o ingles quebrado apesar de muitos anos de estudo e dinheiro investido em escolas e cursos de ingles no Brasil.
O dia esta lindissimo! E primavera em Los Angeles. Cruzo bairros nobres da cidade enquanto admiro a beleza das casas e seus jardins impecaveis. Um verdadeiro festival de flores e cores.
Confiro o endereco e estaciono a porta de um sobrado suntuoso. Toco a campainha e espero anciosa o momento de conhecer meus futuros patroes. Uma mulher magra apesar da gravidez avancada, alta, de cabelos ruivos e ralos, pele de um branco leitoso e olhos azuis abre a porta e se apresenta. Sarah e eu nos dirigimos a sala de estar, sentamos confortavelmente no sofa branco como duas velhas amigas e ali, descontraidamente tratamos dos detalhes do trabalho. A entrevista foi rapida e positiva. Acertado o salario de US$ 250,00 por semana, "live-in", ou seja: dormir no trabalho de segunda a sexta-feira.
Inicialmente, minhas funcoes seriam lavar roupa, limpar a casa, fazer compras, preparar o cafe da manha para Sarah e servi-lo na cama em uma bandeija todas as manhas, dirigir um belissimo Cadillac azul para fazer as compras e levar Sarah as consultas, shoppings e encontros com amigas. Depois de algumas semanas, como estava dando conta direitinho do recado, as tarefas aumentam. Patrao em toda parte do mundo e igual. Devagarinho outros trabalhinhos extras sao incorporados a minha rotina diaria: fazer bainha nas roupas, pregar botao, passar roupa, preparar o jantar, plantar flores. Incrivel! Nem eu mesma sabia que era tao prendada e que tinha tantas aptidoes domesticas.
A suite da empregada, fica no andar de cima, perto do quarto do casal e acompanha a decoracao requintada do resto da casa. Equipada com todos os eletronicos indispensaveis: televisao, aparelho de som, radio-relogio. Banheira de marmore branco, para mergulhar meu corpo cansado depois de um longo dia de trabalho. A cama e grande assim como as dos filmes, cheia de almofadas, edredon de pena de ganco e travesseiros macios onde adormecia e sonhava com meu principe encantado montado em um cavalo branco.
Apos alguns dias apenas, descobri que trabalho live-in e o mesmo que pagar sentenca em uma penitenciaria de luxo.
Foi meu primeiro contato intimo com a cultura e a realidade de uma familia americana. Tambem foi o comeco do meu desencanto.
Limpar casa ate que nao e trabalho dificil. Aqui na America, faxina e na base do spray e um paninho. Complicado mesmo e lidar com os personagens, as manias, as neuras.
O dia comeca levando o cafe na cama para Sarah. O cardapio e simples. Todos os dia o mesmo ritual. Uma das caracteristicas do americano em geral, e que eles sao previsiveis, repetitivos, nao se cansam da monotonia. Contentar o paladar "requintado" da Sarah e missao impossivel apesar da simplicidade do menu: 2 fatias de torrada com geleia, uma taca de cha sem acucar, um ovo quente e uma fruta. E possivel errar? Sim. Por mais que prestasse atencao, nunca acertava na primeira. O pao ficava ou muito branco ou muito torrado e o ovo ou muito mole ou muito duro.
Subia e descia as escadas equilibrando a bandeija na mao, varias vezes ate acertar o ponto da torrada e do ovo.
Apos a agonia do cafe da manha, outra tortura era limpar e lustrar os espelhos dos banheiros. A inspeccao era meticulosa: contra a luz do sol, com a luz do sol, luz apagada, luz acesa, em todos os angulos. Um respingo, uma marquinha branca de pasta de dentes por menor que fosse, uma digital, um fiapo era motivo para eu ouvir meu nome aos gritos. " Olha ali, esta vendo aquele pontinho la encima no lado direito?" Sim, claro.... que coisa.... mas pode deixar que vou lustrar e o espelho vai ficar um brinco. Respondo sorrindo por fora e gritando de odio por dentro. Afinal de contas, patrao, maluco e cliente tem sempre razao.
Por incompatibilidade de culturas e a necessidade de preservar minha saude mental, pedi demissao antes do nascimento do bebe.
Foram dois longos meses de aprendizado e muita experiencia. Aprendi a ter auto-controle e sorrir quando na verdade quero gritar e xingar. (Muitas vezes ainda tenho recaidas). Aprendi que o luxo e o egocentrismo nao e importante e sim a liberdade individual e o bem-estar pessoal. Aprendi a buscar forcas e me erguer quando estou quebrantada e enfraquecida. Paguei muitos pecados tambem!

Saturday, August 8, 2009

50 ANOS

Quando completei 50 anos, escrevi este poema:

Doce lembraca....
do cheiro de terra e da grama molhada da chuva......do castelo de areia, da embolada da onda forte do mar e de catar conchinha na praia.
Doce lembranca dos banhos gelados de chuva e de andar na enxurrada de pe no chao.
Doce lembranca do arco-iris e das nuvens fofinhas formando figuras no ceu.
O tombo de bicicleta, joelho esfolado tambem me trazem doces lembrancas e arrancam sorrisos no meu coracao.
Doce lembranca de brincar a noite na rua......debaixo da luz das estrelas e do pisca-pisca dos vagalumes.
Ah! O algodao doce, o picole de groselha e o doce da padaria....doces lembrancas que trazem de volta a simplicidade e a genuidade da minha infancia.

Elda - 11/12/2004

50 anos de vida plena. Sonhos, derrotas e sucessos, tropecos, lagrimas e risos, amores e desamores mas somando foram 50 anos de muito mais felicidade do que tristezas, apesar da furia das ondas do tempo.